Mom and Dad (2017), de Brian Taylor

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É uma tarefa custosa porém gratificante defender a filmografia de Brian Taylor e Mark Neveldine. Os dois cineastas debutaram com Adrenalina (2006) e até 2011 trabalharam sempre em parceria, dando à luz filmes muitas vezes vistos como grosseiros e sem conteúdo, privilegiando a ação mesmo que para isso tenham que suspender uma lógica mais tradicional no cinema.

São propostas bastante absurdas que movem a liberdade formal dos diretores, premissas que parecem ter saído de uma mente adolescente para enfim justificar a energia sem-vergonha de seus filmes. Seja em Adrenalina, que Jason Statham precisa manter doses altas de adrenalina para seu coração não parar, na continuação, Adrenalina 2 – Alta Voltagem (2009), em que o protagonista deve receber descargas elétricas para se manter vivo, ou em Gamer (2009), onde condenados à morte tem uma segunda chance sendo personagens em um jogo de videogame.

Inseridos em um contexto orgulhoso de não haver sentido, os personagens são sempre levados aos seus limites para poder encarar sequências de ação sem qualquer intervalo. Não há respiro nos filmes da dupla, a noção de ação dos dois é tão complexa quanto ridícula, uma utilização de artifícios formais que acredito só eles e o Michael Bay tenham um olhar tão concentrado para entender. É no meio de tanta depravação que Taylor e Neveldine se divertem em seu playground de recursos visuais, computação gráfica, câmera acelerada e lenta – videoclipes de 1h30 feitos para adolescentes skatistas.

Adrenalina 2 - Alta Voltagem (2009)

Mesmo sozinho, Taylor não abandona todas essas características que o tornaram um autor junto de Neveldine. Em Mom and Dad (2017), há um surto onde todos os pais de uma cidade são tomados pela vontade de assassinar seus filhos, mais uma premissa bastante absurda mas que dessa vez contribui principalmente para um humor físico que o diretor consegue tirar da violência. Os pais se tornam algo parecido com os zumbis de Retorno dos Mortos-Vivos (1985) mas tiveram a preocupação de mostrá-los da maneira decrépita que um cinquentão fora de forma agiria ao tentar assassinar crianças. Logo nas primeiras demonstrações de brutalidade há a presença de uma veia aterrorizante mas ao mesmo tempo engraçada da pior forma possível, como em qualquer filme do Brian Taylor.

O tom caricato fica ainda mais claro na segunda metade do filme quando a família está em casa, visto que os pais querem matar os filhos mas as crianças tentam resolver tudo aquilo de uma forma que ninguém saia morto. Logo o filme vira uma caçada frenética, mas a selvageria fica mais impactante pela forma satirizada que ela é tratada, já que é basicamente a versão live-action de um episódio de Tom & Jerry, há armadilhas e perseguições ridículas de absurdas que destrincham o leque de ideias agressivas que restaram ao diretor. A comparação que me vem a cabeça são os filmes do Joe Dante, que sempre abusaram da cartunização da realidade para compor um certo caos, ficando evidente tanto nos dois filmes dos Gremlins (1984-1990) quanto em Looney Tunes – de Volta à Ação (2003). 

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Ainda assim  Taylor constrói um laço familiar que ao mesmo tempo choca e consegue comover. Por mais clichê que a introdução da família possa ter sido, com o garoto cujo pai é o melhor amigo e a adolescente que prefere o celular a conversar com a mãe, é incrível o peso que tudo isso deságua na forma que os filhos tentam se entender novamente com os pais. O pai por mais que ame o filho sente falta de um tempo só para ele ao mesmo tempo que a mãe se cansou já daquela vida suburbana de dona de casa, levando à decisão até bastante racional de aliar-se para matar os filhos e finalmente poderem ser livres de novo. Os adultos tem momentos tanto de extrema raiva quanto de amor profundo, um sentimento paterno tão crível e concreto. Só resta aos filhos fugirem e tentar se redimirem, voltar à lembranças boas de um passado que talvez possa lembrar aos pais o porquê de haver aquele amor, apelar para a racionalidade que ainda existe nos adultos. A solução final é uma reunião familiar e um perdão que talvez não seja o mais sincero, mas que possa fazer com que tudo volte a ficar bem, mesmo que por pouco tempo.

Mom and Dad vai passar despercebido graças à ditadura do bom gosto que já vem renegando Taylor e Neveldine há mais de uma década. Os diretores compreendem o seu próprio estilo e material, e por não tentarem tratá-lo como algo maior ou justificar-se caíram no ostracismo (sinceramente não vejo Baby Driver ou Atômica, ambos do mesmo ano, como filmes tão diferentes, mas são tão espertinhos, irônicos e fetichistas que conseguiram cair no gosto da maioria dos cinéfilos). Enquanto houverem cineastas que cresceram ouvindo Korn e jogando Tekken, o mundo será um bom lugar.

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Agradecimentos especiais ao João Pedro Faro, que revisou o texto e me apoiou quando quis criar o blog.

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